terça-feira, 19 de julho de 2011

Reflexões de Sidartha Gautama

Não acrediteis no que imaginaste pensando que um ser superior a revelou.

Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações.

Não acrediteis numa coisa só pela autoridade dos mais velhos ou dos vossos instrutores.

Não acrediteis numa coisa só pelo testemunho de um sábio antigo.

Não acrediteis numa coisa só por ouvir dizer.

Não acrediteis numa coisa só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo habito vos leva a tê-la como verdadeira.

Mas aquilo que vós mesmos experimentastes, provastes, e reconhecestes como verdadeiro.

Sidartha Gautama 550 AC

domingo, 17 de julho de 2011

Marilena Chaui

Marilena de Souza Chaui (Pindorama (São Paulo), 4 de setembro de 1941) é uma filósofa e historiadora de filosofia brasileira. Professora de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).    

É mestre (1967, Merleau-Ponty e a crítica do humanismo), doutora (1971, Introdução à leitura de Espinosa) e livre docente de Filosofia (1977, A nervura do real: Espinosa e a questão da liberdade) pela USP.
É casada com o historiador da Unicamp, Michael Hall.


Obteve o doutorado com uma tese sobre o filósofo Baruch de Espinosa. É reconhecida não só pela produção acadêmica, mas também pela participação efetiva no contexto do pensamento e da política brasileiros. Já foi secretária municipal da Cultura na cidade de São Paulo durante o mandato da ex-prefeita Luiza Erundina (1988-1992).

A obra escrita obteve um sucesso apreciável no meio acadêmico, e algumas delas, de linguagem simples e intenção didática, também despertam interesse de leitores não ligados à academia. "O que é Ideologia" (Ed. Brasiliense, Coleção Primeiros Passos) tornou-se um best-seller e vendeu mais de cem mil exemplares, bastante acima da média de vendas dos livros no Brasil.

Nos anos 80, Marilena Chaui foi acusada por José Guilherme Merquior de plagiar a obra do filósofo francês Claude Lefort.
Continua ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT) e considera que a experiência à frente da Secretaria da Cultura do Município de São Paulo foi de extrema importância para tornar o trabalho ainda mais sintonizado com a realidade e os problemas nacionais.

Esse posicionamento político já lhe rendeu comentários cáusticos por parte do colunista Reinaldo Azevedo como se pode ver a seguir:

"Idiota, definitivamente, ela não é. Sabe que uma economia socialista, do tipo planificada, como o mundo a conheceu, não haverá mais. Marilena, a exemplo deste escriba, acredita que a questão central é mesmo a democracia. Mas temos uma diferença fundamental: a dela, e isso está espalhado em vários de seus textos, supõe a superação do que se conhece convencionalmente por democracia — que é a representativa. A minha, obviamente, é de outra natureza e supõe o aperfeiçoamento dos mecanismos de representação, o que, para ela, conduz à manipulação e à alienação.

Marilena acredita na utilidade apenas instrumental do conceito “guerra de posição”, como o empregou o comunista italiano Antônio Gramsci. Movimentos sociais, Parlamento, Judiciário e Executivo surgem como trincheiras a serem ocupadas pelo partido, no interior das quais se estabelece a luta pela hegemonia. Cumpre lembrar que, na teoria, isso se faria até que, claro, tal ocupação pudesse se tornar revolucionária, construindo o socialismo. Ora, o pluripartidarismo, por exemplo, é manifestação óbvia daquela sociedade que Marilena precisa vencer. Não é que ela se alinhe com a tese de que, por burguesa, a democracia deva ser deixada de lado. Ela pretende, na guerra de posição, ocupar os lugares desse modelo de governo para uma nova construção.

Se a democracia era instrumental para Gramsci — fornecia as trincheiras a serem ocupadas —, é Gramsci quem não deixa de ser instrumental para Marilena. Ela não abandonou algumas idéias, não. Teme que a “guerra de posição” acabe se transformando numa acomodação, gerenciada, digamos assim, pela socialdemocracia ou mesmo pelo liberalismo. Por isso mesmo, ela não abandonou aquela palavrinha que o PT ainda não disse nessa campanha — aliás, não fala a respeito desde 2002: “socialismo”. Dona Doida não acredita, e já deixou isso claro muitas vezes, que possa haver democracia de verdade no capitalismo. Por alguma razão, acha que Dilma pode aproximá-la mais de sua utopia.

Perigosa

É com esse tipo de mentalidade perigosa que se está lidando. Aqueles “intelectuais” que se reuniram na USP odeiam mesmo é a democracia. Não por acaso, todos ali têm, sim, críticas duras ao PT, que não lhes parece esquerdista o suficiente – bem, para alguns lá, Kim Jong-Il seria considerado um moleirão.

Vimos, estarrecidos, que Marilena lançou a tese da suposta conspiração de tucanos, que teria o objetivo de inculpar o PT por eventual baderna em sua manifestação, num movimento claro de satanização do outro. Não contente, um capa-preta do partido resolveu recorrer à polícia, registrando um Boletim de Ocorrência de “preservação de direitos”. Leitores me enviam links que deixam claro que a tese já circula há pelo menos uma semana no submundo dos blogs petistas.

A loucura metódica de Marilena — já que o pensamento que vai acima é uma escolha que tem história — chega a culpar os tucanos por males que ainda nem sofreram e a isentar petistas de malfeitos dos quais ainda não foram acusados. São as categorias absolutas: petistas são bons; tucanos são maus; tucanos são culpados mesmo quando inocentes; petistas são inocentes mesmo quando culpados; tucanos devem ser condenados por aquilo que os petistas acham que eles poderiam fazer; petistas devem ser absolvidos por aquilo que já fizeram. Entenderam?" (Por Reinaldo Azevedo).

Títulos:

2004 Título de Doctor Honoris Causa, Universidad Nacional de Córdoba - Argentina.
2003 Título de Doctor Honoris Causa, Universidade de Paris VIII - França.
2000 Prêmio Jabuti para o melhor livro brasileiro de humanidades A nervura do real, Câmara Brasileira do Livro.
2000 Prêmio Multicultural Estadão - pela obra cultural e filosófica e pelo livro 'Nervura do real', O Estado de São Paulo.
1999 Prêmio Sérgio Buarque de Holanda - melhor livro brasileiro de ensaios 'A nervura do real', Biblioteca Nacional.
1995 Ordem do Mérito, Ministério da Educação e Cultura da República Árabe da Síria.
1994 Prêmio Jabuti - para 'Convite a Filosofia', como melhor livro didático, Câmara Brasileira do Livro.
1992 Ordre des Palmes Académiques, Presidência da República da França.

Livros:

Chaui é autora de vários livros, dentre os quais se destacam:
"Repressão Sexual",
"Da Realidade sem Mistérios ao Mistério do Mundo",
"Macaco Azul em Cima da Árvore",
"Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária",
"Professoras na Cozinha",
"Introdução à História da Filosofia",
"Experiência do Pensamento",
"Escritos Sobre a Universidade",
"Filosofia: Volume Único",
"Convite à Filosofia",
"O que é Ideologia' 1980'",
"Política em Espinosa”,
"A Nervura do Real'1999'",
"Espinosa: Uma Filosofia de Liberdade",
"Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária",
"Cidadania Cultural",
"Simulacro e poder".

Fonte: Wikipédia

sábado, 16 de julho de 2011

Por que estudar filosofia?

Desde que estudar filosofia não resulte diretamente em uma capacidade de um programa de computador, gerir uma empresa, ou diagnosticar e tratar uma doença, talvez se possa perguntar por que vale a pena estudá-la, já que  é tão ampla? A resposta é simples. Embora o estudo da filosofia não forneça  um determinado conjunto de “competências para um comércio”, os benefícios ao longo da vida que ela insere são praticamente ilimitadas.
 Aqui estão apenas alguns exemplos de como o  estudo da filosofia aumenta algumas  habilidades:
* Para pensar, falar e escrever de forma clara e crítica,
* Para se comunicar de forma eficaz,
* A forma original, soluções criativas para os problemas,
* Para desenvolver argumentos sólidos para um pontos de vista,
* Para apreciar uma vista diferente do seu,
* Para analisar  material complexo, e
* Para investigar questões difíceis de uma forma sistemática.
 Percebe-se então que a partir desta breve lista,  aqueles que estudam filosofia desenvolvem habilidades que são essenciais não só para  qualquer vocação, mas infunde qualidades vitais para o crescimento como pessoa.
 Além disso, para muitos , tais qualidades,  produzem benefícios práticos também. Por exemplo, porque a filosofia estuda uma melhora de habilidades analíticas, que proporciona uma maior probabilidade de sucesso em testes padronizados, onde o principal fundamento é a lógica, por exemplo,  concurso  públicos e vestibulares. Pensemos a forma que está atualmente elaborada as provas da Fuvest e do Enem, são raciocínio lógico e crítico.
 Finalmente, estudar filosofia é  intrinsecamente útil, uma vez que muitos dos problemas com que os filósofos se debruçam são fundamentais para a existência humana. Existe um Deus? Que é a verdade? O que podemos saber? O que é beleza? Lutando com questões como estas e aprender a história das respostas que lhes enriquece a vida de modo que nenhuma outra disciplina o pode fazer.

Os noeses são as personalidades em que Rafael se inspirou para pintar o rosto dos diferentes filósofos gregos. Isso é claramente uma homenagem às pessoas de seu tempo: 1: Zenão de Cítio ou Zenão de Eléia 2: Epicuro 3: Frederico II, duque de Mântua e Montferrat 4: Anicius Manlius Severinus Boethius ou Anaximandro ou Empédocles 5: Averroes 6: Pitágoras 7: Alcibíades ou Alexandre, o Grande 8: Antístenes ou Xenofonte 9: Hipátia (Francesco Maria della Rovere or Raphael's mistress Margherita.) 10: Ésquines ou Xenofonte 11: Parménides 12: Sócrates 13: Heráclito (Miguel Ângelo). 14: Platão segurando o Timeu (Leonardo da Vinci). 15: Aristóteles segurando Ética a Nicômaco 16: Diógenes de Sínope 17: Plotino 18: Euclides ou Arquimedes acompanhado de estudantes (Bramante) 19: Estrabão ou Zoroastro (Baldassare Castiglione ou Pietro Bembo). 20: Ptolomeu R: Apeles (Rafael). 21: Protogenes (Il Sodoma ou Pietro Perugino). 

Fonte: Profesor Francisco Renaldo

Língua Portuguesa

Ajudando a formar leitores

As histórias em quadrinhos como aliadas dos educadores dos ensinos fundamental e médio na hora de incentivar a leitura

Mafalda é a protagonista das histórias em quadrinhos escritas e desenhadas pelo cartunista argentino Quino. Por meio da menininha, Quino reflete sobre a realidade de seu tempo, colocando suas ideias e refletindo sobre os dilemas da contemporaneidade. Nessa tira, observa-se a manifestação de patriotismo da personagem central, e logo questionado pelo pai, o senso comum, que é rebatido por uma reflexão sobre o que é ser patriota. Essa tirinha pode ser trabalhada tanto com os alunos do ensino fundamental como o médio, nas aulas de História, Sociologia, Filosofia ou até mesmo de Língua Portuguesa, pois faz com que os alunos reflitam sobre cidadania e patriotismo, desfazendo o senso comum.
Filosofia

A personagem Susanita (Susana Clotilde ou Susana Beatriz), também criada por Quino, representa a mulher burguesa que almeja a tranquilidade de uma família bem constituída. Ela busca não se envolver com os problemas do mundo e prende-se às aparências. Nessa tirinha pode-se trabalhar com alunos de ensino médio, com disciplina de Geografia, Geopolítica, Sociologia, Filosofia, trabalhar com a comparação dos trabalhos executados no Brasil e outros países.

Responsabilidade do professor
O que se espera após uma abordagem como essa é mostrar para todos os educadores, sejam eles das séries iniciais, ensino fundamental ou médio, que os gibis são grandes aliados na sala de aula - seja para a demonstração das letras como também uma interpretação mais profunda, a partir das expressões faciais ou da linguagem dos balões. A utilização dos gibis pode ser usada não somente na disciplina de Língua Portuguesa, mas em várias outras matérias, pois o incentivo à leitura é um direito do aluno. O hábito de ler vem da família, logo, se os pais leem, a criança lerá também, ou pelo menos criará um gosto pela leitura. Mas e os alunos que não conhecem esse hábito? Então, é tarefa do professor e não somente o de língua materna, levar à sala de aula textos, cujos temas sejam interessantes à faixa etária dos discentes. Levar o gibi que mostra fatos comuns a vida deles para que se identifiquem com a leitura e tomem gosto por ela.
Fonte: Cristiane Noguueira

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O especialista instantâneo em filosofia

Introdução: O que a filosofia é
Eis uma coisa que o leitor deve sempre evitar tentar explicar. Mas pode desejar ficar com duas coisas claras desde o início.
Em primeiro lugar, a filosofia não é um assunto — é uma atividade. Consequentemente, não se estuda: faz-se. É assim que os filósofos, pelo menos os da tradição anglo-saxônica (que por qualquer razão histórica obscura parecem incluir os finlandeses), têm tendência para pôr a coisa. Em segundo lugar, a filosofia é em grande parte uma questão de análise conceptual — ou seja, pensar sobre o pensamento. Por agora, limitemo-nos ao mais básico.
Isto é algo que no sentir de alguns filósofos é impossível, mas não há razão para o leitor lhes seguir o exemplo. Para o visitante casual que observa rapidamente a paisagem, a filosofia parece desconcertantemente difícil. Uma das suas maiores dificuldades é o fato de os filósofos, salvo raras e honrosas exceções, acharem praticamente impossível usar uma linguagem compreensível para as pessoas comuns, como por exemplo, o português. Acontece até que quando um filósofo quer referir-se à Pessoa Comum (uma espécie que é improvável que ele tenha conhecido em primeira mão, apesar de poder ter ouvido lendas de viajantes acerca dela), usa a expressão “o homem que apanha a carreira 45 para a Damaia”, aparentemente sem se dar conta de que já ninguém usa a palavra “carreira”, exceto para referir o percurso vicioso dos políticos, nem que a Damaia já não é também o exemplo ideal da mediocridade suburbana lisboeta.
A sua tarefa, portanto, é alcançar pelo menos uma tênue compreensão do mais profundo alcance do vocabulário técnico, tal como é usado, de forma tão enigmática, pelo filósofo contemporâneo. Não se preocupe. A competência linguística, tal como o segundo Wittgenstein teria dito (que não deve confundir-se, é claro, com o primeiro Wittgenstein, que não diria tal), é uma questão de pôr as palavras na ordem certa. O leitor não terá realmente de compreender que quer dizer a maior parte disto, se é que quer dizer alguma coisa.
A atitude correta em relação à History of Western Philosophy de Russell é elogiar o seu estilo, lucidez e humor, ao mesmo tempo que se manifestam algumas reservas quanto ao seu conteúdo: “Uma leitura maravilhosa, claro, mas não pensas que é um pouco tendenciosa?” A expressão “não pensas” faz parte de uma pergunta de retórica e nunca deve ser tomada literalmente.
Talvez o mais influente encontro filosófico ocorrido antes da Primeira Guerra Mundial tenha sido o que ocorreu em 1912, quando (o Jovem) Wittgenstein se encontrou com Russell em Cambridge e lhe perguntou (a Russell) se ele (o Jovem Wittgenstein) era um completo idiota; é que, se acaso o fosse, iria para piloto de aviões. Russell disse-lhe que escrevesse qualquer coisa; o Jovem Wittgenstein assim fez, Russell leu uma linha e disse-lhe que ele era demasiado esperto para ser um aviador.
A guerra interrompeu a carreira do Jovem Wittgenstein em Cambridge, mas regressou depois disso já como Primeiro Wittgenstein, passando a dominar a vida filosófica de Cambridge, e não só, durante os trinta anos seguintes. Sendo uma personagem encantadoramente excêntrica, apaixonado por filmes medonhos, vivia numa cadeira de espaldar debaixo de um aquecedor elétrico, num quarto do Trinity College, que fora isso estava completamente vazio. Publicou um único livro em toda a sua vida, o Tractatus Logico-Philosophicus, no qual trata de problemas como a estrutura da proposição, a questão de saber como tem a linguagem significado, assim como as noções de verdade e de falsidade.
As suas investigações fizeram-no acreditar que só as proposições construídas através das conectivas lógicas a partir de proposições atômicas tinham sentido. Daí o nome “Atomismo Lógico” que designa este tipo de filosofia. Tudo o resto não tinha literalmente sentido, o que nos livra da metafísica, juntamente com muitas outras coisas. Na verdade, tem a consequência infeliz de fazer com que quase todo o Tractatus seja ele próprio destituído de sentido, se o que afirma for verdade.
O Primeiro Wittgenstein reconhecia isto, dizendo que só se de alguma maneira já soubéssemos o que ele queria dizer poderíamos compreender o seu livro; e que a sua filosofia era como uma escada que deitamos fora depois de a subirmos. Muitas pessoas interpretaram a metáfora literalmente. A última frase do livro resume a ideia: “Do que um homem não pode falar, tem um homem de fazer silêncio”; ou, para o especialista instantâneo realmente ambicioso: “Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen.”
Depois disso, Wittgenstein deixou a filosofia por uns tempos, convencido de que já tinha dito tudo. Contudo, acabou mais tarde por mudar de ideias: este é o ponto crucial em que o Primeiro Wittgenstein se torna no Segundo Wittgenstein, e, enquanto tal, a segunda figura (depois do Primeiro Wittgenstein) verdadeiramente influente da filosofia do período entre as duas guerras.
No Tractatus, Wittgenstein pensava que as proposições tinham significado porque eram como imagens dos fatos que referem. Mas o Segundo Wittgenstein discordava disto, assimilando ao invés o significado ao uso, concedendo ainda que a linguagem comum era mais complexa (e mais rica em significado) do que o Primeiro Wittgenstein pensava. O resultado póstumo disto é a sua obra Investigações Filosóficas. Morreu em 1951; desde essa altura, têm aparecido regularmente, em publicação póstuma, apontamentos, registros de aulas, listas de compras, notas que escrevia à senhoria, etc., dando a Wittgenstein a distinção extraordinária de ter escrito apenas um livro em toda a sua vida, mas mais ou menos quinze depois de morto. E tudo leva a crer que a sua atividade editorial póstuma está para durar.
autor: Jim Hankinson
tradução: Desidério Murcho


O tradutor da bíblia

João Ferreira de Almeida

João Ferreira de Almeida foi uma importante personalidade do protestantismo português, especialmente conhecido por ter traduzido a Bíblia para a língua portuguesa.
Filho de pais católicos, João Ferreira de Almeida nasceu na localidade de Torre de Tavares, concelho de Mangualde, em Portugal em 1628 e faleceu em Java, Indonésia, 1691.

Ficou órfão ainda em criança e veio a ser criado na cidade de Lisboa por um tio que era membro de uma ordem religiosa. Pouco se sabe sobre a infância e início da adolescência de Almeida, mas afirma-se que teria recebido uma excelente educação visando a sua entrada no sacerdócio.

 Não se sabe o que teria levado Almeida a sair de Portugal, mas talvez isso se devesse à forte influência exercida pela Inquisição em Portugal. Viajou para a Holanda e, aos 14 anos, embarcou para a Ásia, passando pela Batavia (atual Jacarta), na ilha de Java, Indonésia. Naquela época, a Batávia era o centro administrativo da Companhia Holandesa das Índias Orientais, no sudeste da Ásia.
Ao velejar entre Batávia e Malaca, na Malásia, Almeida, aos 14 anos de idade, leu um folheto protestante, em espanhol, intitulado "Diferencias de la Cristandad" (Diferenças da Cristandade). Este panfleto atacava algumas das doutrinas e conceitos católicos, incluindo a utilização de línguas incompreensíveis para o povo comum, tal como o latim, durante os ofícios religiosos. Isto provocou um grande impacto em Almeida sendo que, ao chegar a Malaca, converteu-se à Igreja Reformada Holandesa, em 1642, e dedicou-se imediatamente à tradução de trechos dos Evangelhos, do castelhano para o português.
Dois anos mais tarde, João Ferreira de Almeida lançou-se num enorme projeto: a tradução do Novo Testamento para o português usando como base parte dos Evangelhos e das Cartas do Novo Testamento em espanhol da tradução de Reyna Valera, 1569. Almeida usou também como fontes nessa tradução as versões: Latina (de Beza), Francesa (Genebra, 1588) e Italiana (Diodati, 1641) - todas elas traduzidas do grego e do hebraico. O trabalho foi concluído em menos de um ano quando Almeida tinha apenas 16 anos de idade.
Apesar da sua juventude, enviou uma cópia do texto ao governador-geral holandês, em Batávia. Crê-se que a cópia teria sido enviada para Amsterdã, mas que o responsável pela publicação do texto faleceu resultando no desaparecimento do trabalho de Almeida. Em 1651, ao lhe ser solicitada uma cópia da sua tradução para a Igreja Reformada na ilha de Ceilão, (atual Sri Lanka), Almeida descobriu que o original havia desaparecido.

Lançando-se de novo ao trabalho, partindo de uma cópia ou rascunhos anteriores do seu trabalho, Almeida concluiu no ano seguinte uma versão revista dos Evangelhos e do livro de Atos dos Apóstolos. Em 1654, completou todo o Novo Testamento, mas, uma vez mais, nada foi feito para imprimir a tradução, sendo realizadas apenas algumas poucas cópias manuscritas.
Almeida entrou no ministério da Igreja Reformada Holandesa, primeiramente como "visitador de doentes" e, em seguida, como "pastor suplente". Em 1656, foi submetido a exame em matérias teológicas e, tendo sido aprovado, foi ordenado para o ministério pastoral e missionário. Serviu primeiro em Ceilão e depois na Índia, sendo considerado um dos primeiros missionários protestantes a visitar aquele país.
Visto que servia como missionário convertido, ao serviço de um país estrangeiro, e ainda devido à exposição direta do que considerava ser doutrinas falsas da Igreja Católica, bem como à denúncia de corrupção moral entre o clero, muitos entre as comunidades de língua portuguesa passaram a considerará-lo apóstata e traidor.

Esses confrontos resultaram num julgamento por um tribunal da Inquisição em Goa, Índia, em 1661, sendo sentenciado à morte por heresia. O governador-geral da Holanda chamou-o de volta a Batávia, evitando assim a consumação da sentença.
Em 1676, Almeida apresentou o seu trabalho de tradução do Novo Testamento ao consistório da Igreja Reformada em Batávia, para revisão. As relações entre Almeida e os revisores da tradução ficaram tensas, especialmente devido a diferenças de opinião sobre o significado de algumas palavras e sobre o estilo do português usado.
 Isto resultou em grandes demoras no trabalho de revisão, sendo que quatro anos depois ainda se discutiam os capítulos iniciais do Evangelho de Lucas. Almeida decidiu assim, sem o conhecimento dos revisores, enviar uma cópia para a Holanda visando a sua publicação. Apesar da reação negativa do consistório em Java, a versão em português do Novo Testamento foi finalmente impressa em Amsterdã, em 1681, tendo as cópias chegadas à Ásia no ano seguinte.

No entanto, os revisores conseguiram fazer valer a sua posição, introduzindo alterações ao trabalho de Almeida. O governo holandês concordou com a insatisfação de Almeida e mandou destruir toda a primeira impressão. Ainda assim, Almeida conseguiu salvar algumas cópias sob a condição de que, até nova impressão, os erros principais fossem corrigidos à mão.
Os revisores em Batávia reuniram-se novamente para completar a verificação do Novo Testamento e avançar para o Velho Testamento à medida que Almeida o fosse completando. Em 1689, já com a saúde bastante abalada, Almeida deixou o trabalho missionário para se dedicar em pleno ao trabalho de tradução. Veio a morrer em 1691 enquanto traduzia o último capítulo de Ezequiel. Coube ao seu amigo Jacobus op den Akker completar a tradução em 1694.
A segunda edição do Novo Testamento em português, revista pouco antes da morte de Almeida, veio a ser publicada em 1693. No entanto, alguns historiadores afirmam que, uma vez mais, esta segunda edição foi desfigurada pela mão dos revisores.
Perdendo-se a motivação para a continuação do trabalho de tradução da Bíblia para o português na Ásia, foi a pedido dos missionários dinamarqueses em Tranquear, no sul da Índia e então parte da Índia Dinamarquesa, que uma sociedade inglesa, a Society for Promoting Christian Knowledge, em Londres, financiou a terceira edição do Novo Testamento de Almeida, em 1711.
Durante o Século XIX, a British and Foreign Bible Society e a American Bible Society distribuíram milhares de exemplares da versão de Almeida em Portugal e nas principais cidades do Brasil. Isto resultou em tornar a Tradução João Ferreira de Almeida um dos textos mais populares das Escrituras em língua portuguesa, sendo especialmente usada pelos evangélicos lusófonos.
Atualmente é editada no Brasil principalmente pela Sociedade Bíblica do Brasil e pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

Fonte: Wikipedia


As Sombras da vida - Mauricio de Sousa